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Afinal, o que é mobilidade urbana?

Os desafios de quem vive nas grandes cidades e gasta tempo e dinheiro nos deslocamentos urbanos

Congestionamento total. Essa é a previsão para o ano de 2020 em Belo Horizonte e Região Metropolitana, caso o Poder Público não modifique as políticas para o trânsito. A boa notícia é a de que novos projetos estão em andamento, na busca da chamada mobilidade urbana sustentável – conceito-chave para a reversão da tendência individualista no uso dos meios de transporte nas cidades.

Marcelo Cintra, coordenador de Políticas de Sustentabilidade da Empresa de Transporte e Trânsito de Belo Horizonte, a BHTrans, explica que, desde os anos 2000, os carros em circulação aumentaram numa proporção preocupante: há quatro novos veículos para cada recém-nascido em Belo Horizonte.

Diante dessa realidade, um novo paradigma passou a ser considerado, segundo Marcelo: a mudança e comportamentos e atitudes em via de mão dupla. Ou seja, tanto a administração pública quanto o cidadão comum devem pensar a cidade do ponto de vista coletivo. “As pessoas pensam, por exemplo, que a ampliação do metrô ou o alargamento de vias podem resolver os problemas de trânsito. O nosso desafio é criar condições para que os usuários possam optar pelo melhor meio de deslocamento de acordo com as suas necessidades específicas”, pontua Cintra.

Nessa perspectiva, o olhar das pessoas em relação às próprias demandas de mobilidade passa, também, a definir a política pública para o trânsito. Cintra explica que todos os modos de transporte são válidos e não devem ser descartados. “A questão não é deixar de usar o carro, mas abolir o uso excessivo do automóvel”, completa.

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Os problemas de mobilidade urbana não são novos. Quem mora nas grandes cidades brasileiras conhece bem o estresse e os gastos de dinheiro e de energia com o deslocamento. É o que vive a recepcionista Wandilene Sidonia Mariano, de 25 anos. Wandi, como é chamada pelos colegas de trabalho, mora em Ibirité, a 50 km de Belo Horizonte, e sofre há três anos com o percurso para chegar ao trabalho, na capital. Além das três horas diárias perdidas no trânsito, Wandilene gasta R$9,60 por dia para pegar um ônibus de Ibirité até o centro de Beagá e outro ônibus do centro até o trabalho. O gasto mensal com transporte, R$ 211,20, pesa no bolso da recepcionista, que é obrigada a adiar o sonho de investir na própria capacitação: “Esse valor é muito alto. Se eu pudesse gastar menos com ônibus, usaria o dinheiro para fazer um curso de inglês ou me aperfeiçoar em informática”.

Hugo Carvalho, 20 anos, estudante de Design Gráfico, reclama da escala de horários dos ônibus. O estudante mora em Pedro Leopoldo, a 46km da capital, onde trabalha e estuda. “Saio da faculdade mais cedo, às 22 horas, porque se eu perder o ônibus que passa às 22h20, corro o risco de chegar em casa depois da meia noite”, declara Hugo.

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O coordenador explica que utilizar com mais frequência o transporte público também é uma alternativa para amenizar o caos no trânsito

“As pessoas pensam, por exemplo, que a ampliação do metrô ou o alargamento de vias podem resolver os problemas de trânsito. O nosso desafio é criar condições para que os usuários possam optar pelo melhor meio de deslocamento de acordo com as suas necessidades específicas”

Marcelo Cintra - coordenador de Políticas de Sustentabilidade da BHtrans

Promessas para um transporte melhor

Reivindicação da população da capital mineira e cidades vizinhas há anos, os projetos para integração do transporte coletivo e para a expansão do metrô entraram na pauta dos Governos Estadual e Federal. E a torcida é para que, finalmente, saiam do papel.

Durante visita a Minas, em setembro, a presidente Dilma Rousseff anunciou a liberação de R$2,86 bilhões do PAC, o Programa de Aceleração do Crescimento da Copa, para obras de mobilidade urbana em Beagá. Desse total, R$1,7 bilhão serão destinados para a construção das linhas Lagoinha/ Savassi e Calafate/Barreiro do metrô de Belo Horizonte. Os recursos para o trecho entre Contagem e Betim, cerca R$1,2 bilhão, também estão previstos no Plano Plurianual da União, até 2015.

O Plano também prevê verbas para o Rodoanel Norte/Sul, considerado fundamental para a Região Metropolitana. A obra, que deverá ter início em 2013, pode desafogar o tráfego no Anel Rodoviário de Belo Horizonte. Veículos pesados passarão a utilizar uma via especial, o que diminuirá o número de atropelamentos e acidentes no entorno da capital e cidades vizinhas.

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Wandilene queixa do gasto mensal de R$211,20 com transporte

O sistema de transporte metropolitano também começa a ser reestruturado, com opções mais flexíveis de deslocamento. A ideia é descentralizar alguns itinerários, facilitando o deslocamento de uma cidade para outra, sem perder tempo passando pela capital. Um exemplo é a linha que liga, diretamente, Sabará a Contagem. Dando continuidade a esse processo, dez terminais devem ser construídos, a partir de 2012, nas cidades de Ibirité, Sarzedo, Santa Luzia, Ribeirão das Neves, Sabará, Vespasiano e Contagem.

Ao que tudo indica, apesar de tantos problemas, o país está amadurecendo e busca soluções. Afinal, o crescimento econômico exige a melhoria da qualidade de vida. E com o aumento do poder aquisitivo da população – e o ingresso de milhões de pessoas na classe média – aumenta também o número de carros e motos circulando nas cidades.

Depois do Estatuto do Idoso - ainda não plenamente cumprido, mas sem dúvida um avanço -, em novembro foi lançado o Plano Nacional dos Direitos dos Deficientes. A meta é incluir socialmente cerca de 45 milhões de pessoas que possuem algum tipo de deficiência. De acordo com o Plano, todas as ações do PAC e obras para o Mundial de 2014 deverão cumprir os requisitos de acessibilidade, como a construção de rampas e a reserva de locais exclusivos em estádios, estacionamentos, órgãos públicos e pontos de ônibus.

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A promessa é de que o BRT em vias de área central desafogue o trânsito e beneficie diariamente 700 mil passageiros

Uma aposta para Belo Horizonte

Para a Copa do Mundo de 2014, Belo Horizonte está apostando em um novo meio de transporte para reduzir o volume de veículos circulando pela cidade. É o BRT, sistema de transporte público por ônibus, operado de forma semelhante ao metrô. O BRT – sigla de Bus Rapid Transit, em inglês – foi implantado com sucesso em várias cidades do mundo, como Bogotá, Santiago, México e Johanesburgo. No Brasil, a primeira experiência foi feita em Curitiba, onde o sistema foi implantado no fim da década de 1970 e tornou-se referência de solução urbanística.

Em Belo Horizonte, os veículos circularão em vias exclusivas e em importantes corredores de trânsito, como as avenidas Cristiano Machado, Paraná, Santos Dumont, Antônio Carlos e Pedro I. A estimativa é de que cerca de 700 mil pessoas farão uso do sistema de 27 km de extensão, diariamente. Mais de R$ 600 milhões serão investidos para a instalação do BRT. Isso representa cerca de 10% do custo, por quilômetro, de implantação do metrô, conforme a experiência internacional. A promessa é de término das obras até março de 2013.

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Mas investimentos no transporte coletivo não bastam. A receita para a mobilidade urbana sustentável passa pela educação. Em outras palavras, a população precisa entender que o sucesso depende do comportamento de cada um no espaço urbano. Sendo assim, respeito, tolerância e gentileza são elementos fundamentais no processo de reorganização das cidades.

Vou de bike... e você?

“Sair de carro no horário de pico é pagar mico.” Quem diz isso é o publicitário Eduardo Sanábio, que há sete meses decidiu trocar o ônibus pela bicicleta. A opção pela “magrela” está relacionada ao tempo que Eduardo gastava dentro do coletivo – quase uma hora em um curto trajeto entre a casa e o trabalho. Hoje, o ciclista economiza tempo – cerca de meia hora por dia – e consegue pagar as contas de telefone e internet com o dinheiro que consumia com as duas passagens diárias.

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O BRT deverá ser operado de forma semelhante ao metrô, com capacidade para atender os usuários com rapidez e conforto

Veículo de baixo custo de aquisição e de manutenção, a bicicleta pode ser uma excelente alternativa para a melhoria do fluxo no trânsito e da qualidade de vida da população das cidades que sofrem com os congestionamentos. Não poluente, silenciosa e flexível, é recomendável também para quem quer cuidar da saúde. Mas, para que a população se sinta segura e estimulada a usar a bike no dia a dia, a cidade precisa, em contrapartida, oferecer condições adequadas para esse meio de transporte.

“Para mim, o que está faltando é consciência, respeito e ciclovia”

Eduardo Sanábio - Ciclista

Os municípios de médio e grande porte ainda não oferecem infraestrutura adequada para o deslocamento seguro de ciclistas no espaço urbano. Os poucos que adotaram a prática, como Eduardo Sanábio, se arriscam em meio a milhões de automóveis nas grandes cidades do país. “O motorista não respeita o ciclista. Os ciclistas deveriam andar de acordo com as normas de trânsito, mas é impossível. Muitos motoristas arrancam em cima de nós e até fazem terrorismo. Para mim, o que está faltando é consciência, respeito e ciclovia”, argumenta Sanábio.

Ainda assim, o publicitário comemora a construção de algumas ciclovias em Belo Horizonte. “Aproveito a ciclovia para ir ao bairro Floresta uma vez na semana, mas é pouco: dos 25 minutos do trajeto, percorro apenas a metade na ciclovia. Se houvesse boas opções, mais pessoas escolheriam esse transporte”, defende.

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Para Eduardo, a ciclovia é uma necessidade para quem quer andar de bicicleta com segurança

Em 2011, foram investidos R$1,160 bilhão em cinco novas ciclovias, totalizando 18km de percursos nas regiões Norte, Leste e Centro-sul da capital mineira. De acordo com a BHTrans, há projeto para outros 117km nas regiões do Barreiro e Venda Nova.

A construção de ciclovias, somada a soluções para o transporte público de massa, poderá surtir efeitos de longo prazo, promovendo opções seguras de mobilidade para a população. Mas o desafio é imenso: é preciso reverter o número de carros circulando na cidade e, consequentemente, o número alarmante de acidentes e atropelamentos.

De acordo com dados da BHTrans, o número de acidentes de trânsito com vítimas cresceu 2,7% nos últimos dois anos. No ano passado, foram registrados 16.822 acidentes com mortos ou feridos, somente em Belo Horizonte. Para transformar esse cenário, cidadãos e governos terão que unir esforços para encontrar soluções locais e globais para a mobilidade urbana nos grandes centros.

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A equipe de educação para o trânsito da BHtrans desenvolve atividades educacionais para estudantes em Beagá

Um novo olhar para a cidade

Então, como organizar o espaço de maneira mais humana e sustentável, para o bem de todos? A pedagoga responsável pela educação no trânsito de Belo Horizonte, Edina Ribeiro, responde: “É necessária mudança de comportamentos. E isso exige muito mais do que aprendermos as regras ou as técnicas. Exige, principalmente, a promoção de uma tomada de consciência das questões em jogo no convívio social”.

Os investimentos em ações educativas devem começar na infância e se estender à vida adulta. Para a pedagoga, é preciso o exercício da cidadania, o que não se refere somente ao comportamento na via pública, mas também aos interesses e aos compromissos individuais com as questões que interferem na mobilidade de todos. Na prática, as pequenas ações somam-se para a coletividade.

Atitudes simples podem contribuir com a mobilidade de todos, diariamente. Andar a pé é uma alternativa, por exemplo, para a redução do número de veículos nas vias; ou optar pela bike, como faz Eduardo Sanábio. Quantas pessoas não utilizam o carro para se deslocarem apenas dois ou três quarteirões? Edina lembra que revezar entre o uso do transporte público e o carro também é uma contribuição valiosa para a mobilidade de todos. É fácil organizar a carona solidária para a ida à escola, ao trabalho e até mesmo ao lazer. E basta um pouco de iniciativa para descobrir que vizinhos saem no mesmo horário e vão na mesma direção, todos os dias.

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