O prazer de andar a cavalo
Matérias Publicadas - Esporte
Sex, 16 de Dezembro de 2011 16:53
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O prazer de andar a cavalo

O hipismo é um esporte que propicia a convivência saudável e o encontro de valores reais e autênticos

Uma prática milenar. O homem e o cavalo têm uma relação de mais de três mil anos, ainda que o hipismo ou, como também é conhecido, a equitação seja mais recente em nossa história. O esporte consiste, embora seja mais do que isso, num conjunto de ações em que o cavalo e o cavaleiro, em sintonia, demonstram suas habilidades em saltar e correr. Para quem ama esporte, animais e natureza, é uma combinação muito agradável.

Foram essas características que chamaram a atenção de Rômulo Rocha, empresário do ramo de construção. “Sou muito ruim de futebol, mas sempre tive um pé no esporte off road (fora de estrada). Para você ter uma ideia da minha paixão, fui um dos criadores do Enduro da Independência aqui no estado”, revela. Desde jovem, o empresário sempre fez alguma atividade esportiva: do esqui à motocicleta, do voo livre ao hipismo - este pratica há 15 anos. O amor pela prática esportiva cresceu tanto que ele criou o Centro Hípico Esportivo Vale do Sol, o Chevals. “Muita gente acha que o nome da hípica é o plural de cavalo em francês, que se escreve cheval. Alguns me corrigem dizendo que o plural é chevaux. Mas o nome é apenas uma sigla e uma feliz coincidência com a palavra em francês”, conta.

O Centro Hípico, que foi criado para ser um complexo esportivo,fica a 12km do BH Shopping, no bairro Belvedere, em Nova Lima. “O Chevals não é um empreendimento comercial, e sim um projeto de vida. Criei um espaço para que pessoas com os mesmos valores tenham um lugar para convivência saudável”, revela o empresário.

A hípica, além de ter hotel para cavalos, é uma das mais bem-estruturadas escolas de equitação do país. “O esporte cria equilíbrio, noção de limite e postura nas pessoas. O hipismo é uma prática na qual quem manda é a técnica e não a força física e a juventude, além de ser mais fácil e barato do que se imagina”, conta Rômulo. A afirmação do empresário é para desmistificar que o hipismo acontece somente em lugares sofisticados. Ele comenta que nunca viu um ambiente no esporte que seja tão saudável e familiar ao mesmo tempo. “Muitos pais e mães me agradecem, pois este lugar é a salvação para as drogas, madrugadas e uma adolescência conturbada.”

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Para o empresário Rômulo Rocha, Nova Lima é o berço dos esportes off road (fora de estrada) em Minas Gerais

Um mestre

Há mais de 30 anos, Marcos Fernandes tem como ocupação: ensinar as pessoas a montar a cavalo. O instrutor de equitação diz que a primeira lição aprendida é a postura. Em seguida, vem o treinamento de equilíbrio e as instruções para se saber dominar um cavalo, usando as ajudas: mãos, pernas e assento. “O bonito da equitação é a descrição das ajudas. Você usa a perna para aumentar a velocidade e a mão para diminuir. Hipismo é um esporte muito técnico.” Por isso, Marcos conta que a atividade propicia aos praticantes disciplina, concentração e força de vontade – com a peculiaridade de depender de outro ser vivo. Para tanto, é preciso conhecer o cavalo, as reações dele. “A sensibilidade para captar os sinais do cavalo é importantíssima, porque o animal não fala”, diz.

O esporte, além de trabalhar a consciência corporal, trabalha os músculos da perna, principalmente a parte interna posterior. “Por isso as amazonas não tem celulite”, revela. O instrutor acrescenta ainda que o hipismo não é um esporte perigoso, mas tem seus riscos como qualquer outro. “Sendo assim, existem ações para minimizar. O chão é de areia ou grama, e o esportista sempre usa um capacete. Não provoca acidentes graves, mas cair faz parte do esporte. Por isso, a pessoa aprende a cair de forma a não se machucar.”

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Renata Teixeira de 11 anos, a exemplo do pai, ama montar a cavalo e quer trabalhar com animais quando crescer

Jovens talentos

Para Renata Teixeira, 11 anos, o pai sempre foi um espelho. Incentivada por ele, começou a ter aulas de equitação. “Fico muito feliz quando estou em cima de um cavalo. Gosto tanto de animais que quero trabalhar com bichos quando eu crescer”, revela a garotinha. O pecuarista Renato Teixeira conta que praticou o esporte dos 13 aos 16 anos, mas parou. “Voltei 27 anos depois e comecei a trazer minha esposa e minhas filhas para o Chevals.” Há quatro anos a filha do pecuarista monta a cavalo. O amor pelo esporte lhe rendeu uma égua de presente do pai e alguns prêmios, como o segundo lugar no Campeonato Brasileiro de Hipismo em sua categoria.

O cavaleiro e estudante de Direito, Eric Nahum, 18 anos, começou a montar a cavalo com apenas três anos de idade. “Aos finais de semana, meus pais me levavam à feira do Mineirão para eu montar. Mais tarde, incentivado por eles, procurei uma hípica em Belo Horizonte, onde comecei a treinar.” A brincadeira de Eric acabou por virar coisa séria, e o talento do rapaz não rendeu apenas títulos, mas também o apoio financeiro de empreendedores. O atual campeão mineiro e vice-campeão brasileiro é patrocinado pelas empresas Uptime, J. Campara e Paulinelli.

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O atleta conta que o esporte lhe traz uma vida diferente da dos jovens atuais Além de disciplina, condicionamento físico e controle emocional, lhe possibilita conhecer pessoas, lugares e culturas. O cavaleiro mais jovem a conquistar um título brasileiro, atualmente, treina de terça a domingo no Chevals, seis horas por dia, em média. E como todo jovem, Eric tem sonhos e planos. “Quero manter o título mineiro, conquistar o brasileiro e, ainda, disputar o Pan-americano e os Jogos Olímpicos. Mas tenho consciência de que é um processo lento e exige muito treino”, revela.

Para o Instrutor de Equitação Marcos Fernandes, a atividade propicia aos praticantes disciplina, concentração e força de vontade

Equoterapia

A esposa do repórter cinematográfico Luiz Henrique Queiroz teve uma complicação na gestação de Thaís, de 2 anos. Patrícia Palhares estava grávida de gêmeos e, no terceiro mês, um dos fetos sofreu um derrame. O parto complicado fez com que faltasse oxigenação no cérebro da menina. “Essa complicação acarretou na paralisia dos membros inferiores de minha filha. Por isso, o pediatra indicou a equoterapia para Thaís. Ela não ficava em pé. Porém, com quatro meses de tratamento, passou a andar com o andador e está a cada dia melhorando o equilíbrio”, conta Queiroz.

O fisioterapeuta especialista em Pediatria com Ênfase em Hipoterapia do Chevals, Bruno Assis, diz que o grande diferencial desse tipo de tratamento é ter o cavalo como recurso terapêutico. “Isso acontece porque o movimento do animal é semelhante à marcha humana e, por isso, provoca respostas motoras que melhoram o equilíbrio, a coordenação motora e a força muscular.”

Além disso, é uma atividade lúdica na qual as crianças são tratadas como se tudo fosse uma brincadeira. Ele conta que a pequena Thaís tem o cognitivo preservado, mas precisa de um trabalho para fortalecer os membros inferiores. “Por isso fazemos alongamentos que exigem esforço muscular, o que, na verdade, é uma preparação para colocá-la de pé”, conta.

O fisioterapeuta ensina que o tratamento com equoterapia é indicado para todas as pessoas com quadros neurológicos: crianças com Síndrome de Down, paralisia cerebral, hiperatividade, traumatismos cranianos e raquemodulares.

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O objetivo da equitação para a pequena Thaís, segundo o fisioterapeuta Bruno Assis, é usar o cavalo com recurso terapéutico

Cuidados especiais

A peça fundamental do esporte, o cavalo, precisa de cuidados especiais. Essa é a função que o veterinário Thiago Amery faz há cinco anos. “A minha meta é manter os cavalos trabalhando por mais tempo e com a melhor qualidade possível”, diz. Para isso, sua rotina de trabalho está focada na prevenção, sempre acompanhando a rotina dos animais. Além disso, o veterinário cuida da alimentação, que varia entre ração industrializada, aveia, linhaça, feno de tifton e alfafa. Quem também cuida dos cavalos no Chevals é Lúcia Diniz, uma das poucas tratadoras de animais do país. A ex-operadora de caixa exerce a função há três anos, mas sempre conviveu com cavalos, pois morava numa propriedade rural com o pai. Todos os dias de manhã quando Lúcia chega ao estábulo os cavalos relincham quando escutam sua voz. “Eles me reconhecem”, sorri. A primeira e principal tarefa é colocar as rações de acordo com as orientações do veterinário, duas vezes por dia.

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O campeão mineiro de equitação, Eric Nahum, treina, aproximadamente, 36 horas por semana

Depois, limpa as camas dos cavalos. O restante do tempo ela lava ou limpa os cavalos com a rasqueadeira e passa a escova para que os animais fiquem com o pelo brilhando. Tira os pelos da orelha e corta a crina. “Para mim este trabalho é uma terapia. Não o trocaria por nada”, orgulha-se.

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Uma das poucas tratadoras de animais do país, Lúcia Diniz, vê o trabalho como terapia